As gavetas estão desarrumadas, aquele velho covarde
insiste em voltar, afinal é muito melhor ficar preso
ao paradigma solitário, vazio confortante da falta de
sentimento é uma droga fácil, bebericadas e tragos
trazem novas e velhas mentiras no mesmo passo, se
quiser posso tomar um porre de felicidade, se for
sincero me entrego na fossa. Sentimento é foda,
euforia muitas vezes é premonição de desilusão,
tivesse eu resumido ao cotidiano que já arquitetei,
não pensaria tanto no amanhã, vendo se alguém saí do
supermercado, um coração babaca igual aos outros,
mesmo sabendo que o meu é mais babaca, porque ele
sofre de um mau cego, ontem no ônibus fiz de tudo pra
não olhar a criança que o pai oferecia como troféu,
mostrando receitas médicas e falando do problema,
endureci o olhar e não olhei pro lado, mentalizei na
indústria da miséria e não iria contribuir com aquilo,
o pai parecendo malucão vocalista de banda de Hip Hop,
mais a criança balbuciou bem no meu ouvido, aquilo me
incomodou pra caralho... Mais resisti, só que foram
segundos, a criança balbuciou de novo e olhei a beleza
indefesa de lábios defeituosos, não tive repulsa só
que entreguei as moedas pro pai e nem queria saber se
ele usaria aquilo pra sua droga ou seria sincero
cuidando daquele indefeso, mais a impotência daquela
criança deixou-me embaçado, afinal a alma quer mudar e
transformar esse mundão desses fatos sem sentidos, de
um coração babaca que anda balançando por um
sentimento que andava desbotado e esquecido no fundo
da gaveta, talvez eu use meus óculos escuros me
perdendo pela janela vazia do trafego e vendo passar
os transeuntes anônimos sem vida.